Modalisboa Boundless Day 1

Alexandre PereiraAlexandre PereiraCarolina MachadoCarolina MachadoCarolina MachadoJoão OliveiraLiliana AfonsoLiliana AfonsoMariana LaurênciaMariana LaurênciaMicaela SapinhoRita AfonsoRita AfonsoRita CarvalhoRita Carvalho
Foi dada a partida!

As ruas enchem-se de looks arrojados, centenas de flashes, agitação e muita expectativa para mais uma edição lisboeta do melhor da moda nacional. Por três dias, 10, 11 e 12 de março, a regra é não ter limites, boundless, regra esta que leva a não ter regras, e conduz a 48º edição da Moda Lisboa não só à sua essência enquanto arte livre em expressão e imaginação, como a direciona a um futuro que se espera isento de fronteiras estéticas, criativas, espaciais e culturais.

O quebrar das barreiras inicia-se na escolha do novo espaço que recepciona esta fashion week , o Centro Cultural de Belém (CCB). A fusão da moda com a arte vai ao encontro das exigências de uma sociedade que não se quer conformada, que procura desafiar a capacidade humana de criação e rompe padrões ao tentar obter sempre mais e melhores interpretações do mundo em que se insere. Moda e arte são ambas poderosas formas de expressão que têm por definição o olhar diferente sobre o óbvio .

É assim, em tom de desafio à criação individual e coletiva, que se dá inicio à apresentação das novas coleções outono/inverno 17/18, num total de 24 desfiles, entre grandes nomes do design, laboratórios e o concurso Sangue Novo, que faz uma vez mais as honras na abertura da Moda Lisboa.

Sangue Novo

O fim de semana é de moda e a criatividade sem limites.

Foi na tarde desta sexta feira que o novo espaço da Lisboa fashion week abriu as portas, num fim de tarde ensolarado que anunciava a chegada da primavera e recepcionava calorosamente os convidados de mais uma edição.

Ainda é cedo para dizer algo sobre o street style que invadiu os espaços do CCB, mas a ousadia nas combinações das indumentárias mantém-se uma procura permanente: os metalizados fundem-se com as gangas, que por sua vez se começam a juntar aos padrões florias, em peças fluídas, oversized e adornadas com fitas, presilhas, correntes e customizadas com diversos emblemas cozidos nas peças. Os acessórios das estações quentes que se anunciam também aparecem sorrateiramente, em chapéus de grandes abas ou calças em evasé pelo tornozelo. No que diz respeito ao bem calçar, o conforto continua a ser tendência,  continuando os saltos a serem baixos, largos, e os ténis um elemento essencial na finalização dos looks escolhidos.

Mas falemos de Sangue Novo. Uma vez mais foi a nova geração de designers que abriu as passereles. Foram oito os artistas que fizeram a apresentação das suas coleções que tiveram como propósito exprimir os resultados sociais de um mundo global, onde o sujeito se torna refém de elementos que aparentam ser fonte de uma maior liberdade, mas que o tornam impessoal, mecanizado e sobrevivente perante uma ilusão de novas possibilidades vindas dos sonhos partilhados mediaticamente. Falamos de vazios que querem ter voz, espaço e presença numa sociedade que é fonte constante de informação e novidades.

João Oliveira, Rita Afonso e Alexandre Pereira foram os nomes que soaram vitoriosos deste desafio.

As emoções expressas nas peças oversized e tricolores de “Society”, de João Oliveira, não podiam deixar ninguém indiferente. As enormes roupas que se prendiam aos membros e pescoço através de cintos e fitas, eram fortes expressões de falta de liberdade. As mesmas eram complementadas por sobreposições de peças que pareciam pesar sobre a falta de espaço, carregadas como algo que incomoda, mas que por cansaço não se dá importância. Algo memorável foram as enormes mangas em balão que se arrastavam pelo chão e uniam os braços, num exemplo claro de indiferença acerca dos acontecimentos da vida.  As cores preto, vermelho, cinza e azul, bem como o peso dos tecidos, reforçaram o conceito de algo que era suportado, pois as peças pelo seu tamanho poderiam ser sinal de conforto. João Oliveira saiu sorridente deste desalento identificado na sua coleção.

O barulho de Alexandre, com “Noise”, e o grito de Rita, com “I am vase, but I scream”, fizeram-se igualmente ouvir, sendo estes os detentores das menções honrosas da noite. Alexandre Pereira foi a evidência da sociedade atual, identificando os indivíduos como gado, que seguem a dependência das tecnologias, do excesso de consumo e perda de identidade. Este conceito foi transmitido pelos brincos que nada mais eram do que etiquetas de gado bovino e pelas enormes etiquetas de preço expostas em cada peça. A ganga, conjugada com o castanho e vermelho, definiram um estilo citadino e cuidado com toques de ruralidade transmitidos por fitas, espartilhos, macacões e moldes largos.

Rita Afonso, por sua vez, foi a materialização do próprio grito. Poderia mesmo dizer-se que foi uma mistura de Clarisse Lispector, na qual se inspira com a ideia de ser um objeto que grita, com a Carmen Miranda da atualidade. Numa coleção feita de sobreposições de peças, os cortes mostram-se femininos, acompanhados de mangas em balão e peças com aberturas, sendo os turbantes a marca de destaque das suas escolhas. Todas as peças foram adornadas com emblemas de frutas e jarras,  bem como com flores e padrões xadrez, de forma a dar vida às tradicionais naturezas mortas das artes menores. Tratou-se de uma homenagem às mulheres artistas, que foram socialmente impedidas de se expressar artisticamente. É um grito em nome de todas as liberdades e sonhos femininos que foram sufocados.

Mas a irreverência não ficou por aqui, destacando-se o desfile de selfies de Micaela Sapinho, que fez as delicias do público ao comprovar a dependência de todos perante este ato narcisista; a coleção sobre as fantasias do individuo atual de Mariana Laurência, em que os modelos surgem com máscaras de coelho, revelando o acordar para a realidade quando ocorre o retirar das mesmas; e a ostentação e delicadeza na combinação de materiais de Liliana Afonso, que sobre a neutralidade de cores sobrepôs texturas, franzidos e uma evidência de auto-negação e incapacidade, envoltas nesta leveza aparente elegância e leveza feminina. O anular das mãos com mangas demasiado grandes, os tecidos que pareciam sufocar a fala e o respirar, bem como os brincos, que simulavam um buraco negro, representando a facilidade de diluição daquela beleza, foram exemplo disso.

Tratou-se de um conjunto de apresentações de grandes novos talentos, que foram firmes na exposição das ilusões a que as tecnologias atuais submetem a sociedade, bem como na evidenciação do resultado de anulação de identidade e vazio a que estas a condenam.

David Ferreira e Ricardo Preto

Findo o esperado Sangue Novo, o decorrer do primeiro dia da Moda Lisboa contou com a apresentação de dois nomes, David Ferreira e Ricardo Preto, em registos opostos, onde ambos colecionaram aplausos pelas suas criações.

 

O que dizer do laboratório de David Ferreira? Bem vindos ao País das Maravilhas! Tudo foi possível, desde as cores vivas, aos tecidos irreverentes, ao jogo de silhuetas únicas, tendo o nome da coleção realmente resumido do resultado final desta apresentação: freakball, ou melhor dizendo, freak and great show!

Independentemente dos gostos pessoais, foi um desfile que ficou na memória de todos e possível recriado em qualquer livro de histórias. As suas criações foram o aplauso da individualidade e singularidade, tornando o diferente sinónimo de admiração.

Desde vestidos compridos com folhos e godês de diversas cores, aos moldes de saias, mangas e ombros feitas de enormes estruturas de pelo, aos tecido crepe de cetim e seda, às cores fortes de rosa, azul, amarelo e verde, tudo foi exibido neste desfile. A maquilhagem e acessórios acompanharam a folia das roupas, com lábios coloridos e metalizados e plumas extravagantes, para adornos de cabeça. Tratou-se de uma verdadeira festa circense ou sonho de criança, em que nos tornamos a Alice e acordamos num mundo onde a imaginação dita a realidade.

Por sua vez, inspirando-se nos fundadores da Bauhaus dos anos 30, Ricardo Preto seguiu o caminho oposto do anterior desfile, optando pela simplicidade das linhas geométricas, das cores planas e cortes clássicos, num casual chic que se destacou pelos detalhes. As golas altas, em peça única ou como parte integrante de outra, foram a tendência revelada para o próximo outono/inverno. Por sua vez as transparências vieram para ficar, bem como as aberturas frontais nos ombros, ou adornos sobre os mesmos, com a aplicação de diferentes materiais e tecidos. As cores escolhidas foram discretas, mantendo-se entre preto, musgo, azul escuro e bordô.

Text por: Carlota S. Veiga
Video by: Shaun Michael
Sem mais artigos