“LISBOA ESTÁ NA MODA”

Por três dias, a capital portuguesa encheu-se de irreverência e deu lugar à 47º edição da Moda Lisboa. Recepcionada por um sol intenso, que deu cor à cidade e trouxe às ruas amantes e curiosos deste evento, a “fashion week” lisboeta veio uma vez mais transformar as calçadas em passarelas de “street style”. Com outfits arrojados, seguindo as últimas tendências na moda outono/inverno, cada um assumiu a sua “identidade fashionista” para receber as novidades da próxima estação.

“Together” foi o tema e a palavra de ordem desta edição: juntos no reconhecimento da construção de um património e em comemoração de um conceito de moda integrador, sólido, alcançável e capaz de realizar mudanças no mundo. Foi em “união” que se deram estes 25 anos de moda em Lisboa.

As Ruas

O que foi adequado vestir numa fashion week? Tudo!

Saias plissadas, calças rasgadas, cinturas altas, listras e looks “all black” definiram a maioria das escolhas no recinto. As combinações foram diversas, de forma a encontrar o “casual chic” mais marcante. Calças pelo tornozelo e bombers foram trazidos deste verão, bem como a escolha de ténis para complemento dos looks.

O outono trouxe consigo as peças “over size” e as sobreposições, masculinas e femininas, numa brincadeira de justos e soltos. A diversão encontra-se nos diferentes tamanhos, formas de corte e texturas de cada peça.

Contudo o calçado, foi o que mais teve realce. Sobretudo os botins! De veludo, brancos ou coloridos, foram a peça chave das escolhas de rua. Os saltos engrossam e a altura mantém-se baixa, os tornozelos são cobertos e o conforto continua a ser uma exigência entre as tendências do bem calçar. Os modelos oxford e as botas “over the knee”, mantiveram o seu posto entre peças trazidas das estações anteriores.

A moda masculina acompanhou o estilo confortável, onde os casacos sobre os ombros e blusões desportivos não passaram despercebidos.

Risos, conversas e fotografias circularam livres pelo Páteo da Galé, no Chiado, perante uma recepção calorosa de todos e para todos, onde a moda e as suas vertentes foram o elo de união e de amizade. A verdadeira beleza das ruas esteve na capacidade de expressão individual, na diferença, que fez cada um transmitir uma mensagem sobre si e integrar-se com os demais.

 


O Ambiente

O interior dos claustros do Páteo da Galé encheram-se de pessoas. Entre as filas permanentes para a entrada nos desfiles, diversos balcões de marcas patrocinadoras chamavam à atenção daqueles que procuravam conhecer o espaço, ou circulavam entre grupos de amigos.

Entretenimento não faltava enquanto se aguardava a abertura das portas. A Vogue e a Máxima, além da distribuição de revistas, montaram cenários de fotografias polaroid, que faziam as delicias dos grupos femininos. O mesmo acontecia nas cadeiras de maquilhagem da Perfumes&Companhia. Duas pessoas, em trabalho permanente, maquilhavam e apresentavam a nova linha de Maria João Bastos para a Make Up Factory. Um bar em tons de cobre fazia as delícias de todos, com o serviço permanente de cocktails, que alegrava os grupos presentes.

Quem preferisse um espaço aberto, no centro da praça, numa enorme tenda transparente havia sido montado um showroom, que iluminava todo o espaço circundante.

Entre conversas, risos e desfiles, o ambiente foi de descontração e animação, proporcionando momentos memoráveis a todos.

 


As Tendências

Muitos foram os desfiles que decorreram ao longo destes dias. Diferentes conceitos, inspirações, propósitos e manifestos, foram a base das coleções apresentadas em desfile. Delas foi possível retirar apontamentos que vão ser guias de estilo para os futuros dias quentes de 2017.

A inovação deu-se pelas cores, cortes e aplicações. Bege, azul esverdeado, rosa salmão, amarelo mostarda, azul pretóleo e os básicos preto e branco, são os tons a ter em atenção no próximo verão. Em pastel ou metalizado, o importante é captar a essência alegre que as estações quentes propiciam.

Aplicações diversas como cintos, presilhas, medalhas e faixas, peças largas e a sobreposição de elementos curtos sobre peças de grande comprimento, definem, em particular, a moda masculina.

Na moda feminina mantém-se o “hippie chic” e retrocede-se aos anos 70. Ressaltam os padrões florais, campestres e geométricos, complementados com cordões e fitas, que conferem uma verdadeira feminidade e delicadeza às peças. O mesmo acontece quando a mulher assume a sua essência através do estilo disco, com peças vibrantes metalizadas, em conjugação com estampas e slogans.

O estilo desportivo é algo comum aos dois sexos, onde ocorre um jogo de materiais e texturas que dão um toque moderno ao visual. Bolsos expostos, diversas aberturas pelas roupas, ou costas abertas são exemplo disso.

As conjugações das peças são múltiplas e podem ser feitas de acordo com a mensagem a transmitir pela personalidade de cada um. Saber vestir, reutilizar e conjugar peças de acordo com a tendência da estação, é saber comunicar.

Sangue Novo

Anunciados ao som do fandango tocado ao vivo,  11 novos talentos do mundo da moda tiveram oportunidade de expor as suas criações, dando início à abertura deste evento.

Ideias originais não faltaram: foram apresentadas coleções do feminino ao unissexo, passando por um ring de luta e terminando numa manifestação em prol do feminismo, de Simone de Bouvoir, onde a mulher se assume proprietária do seu corpo através dos dizeres “free the nipple”,“my body, my choice” e “woman up”.

Dando um “Blackout” sobre as coleções adversárias, João Barriga foi o grande vencedor do Prémio Moda Lisboa. Apresentando apenas peças em preto, representou o vazio e a auto destruição. Negando a existência de género e de corpo, recorreu ao tamanho exagerado e à cor escura das peças, para expressar o bloqueio com o mundo. Cadeados, correntes e cintos surgem como acessórios e metáforas relativas à prisão causada pela mágoa.

Em entrevista João demonstra querer manter o estilo noturno nas suas criações, preservando o underground urbano, por uma questão de stilyng. As cores hão-de surgir, sem previsão de chegada.

Por sua vez, Ana Duarte, apresentada apenas como Duarte, foi merecedora da menção honrosa da Moda Lisboa: uma entrada direta para os laboratórios da próxima edição. Aliando o conceito do Kickboxe ao gasto energético e criação de expetativas,  representativos da sociedade atual, deu o “Knockout” sob os restantes nomes e saiu vitoriosa desta disputa.

Nas Passereles

Vários foram os nomes que expuseram as suas criações ao longo desta “fashion week”. Ao todo realizaram-se 20 desfiles, dos quais pretendemos destacar os que mais marcaram pela criatividade.

Falamos do caso de Dino Alves e da sua coleção Warning. Aqui a natureza foi personagem principal, ao retratar, através de plantas e flores, o ciclo da vida.  Tratou-se de um alerta aos comportamentos destrutivos da humanidade sobre o ambiente e as suas consequências sobre as gerações futuras. Tules, folhos, aplicações gráficas e transparências, esculpiram peças que tornaram o corpo de cada modelo tanto num arranjo de flores, como numa embalagem de produtos químicos. E a catástrofe aproxima-se. Com início em tons fortes e vibrantes, as peças vão perdendo a vida, o tamanho e a cor ao longo do desfile, culminando na sua extinção, em cinzas. Dá-se a morte da natureza. As modelos surgem cobertas de pó, entre uma névoa que se vai criando pelo seu andar, formando um ambiente de destruição. Retrata-se assim o romance trágico entre a humanidade e o planeta.

Outro destaque vai para Valentim Quaresma, com suas peças de joelheria. Embora a sua coleção fale de liberdade de movimento e pensamento, a nossa interpretação remete para a ideia de que essa liberdade é comparável à livre existência dos elementos da natureza. O pensamento pode ser livre como as águas, ou como o ar e quebrar as barreiras que nos prendem ao solo.  As primeiras criações, com correntes e medalhas, remetem para o peso dos metais, e dos pensamentos pré concebidos, que se vão tornando fluidos e leves como as águas e o vento, representados em enormes adornos em dourados e azuis sobre vestes brancas e pretas, ou por estruturas de borboletas, presentes nas últimas peças a aparecer. Um deslumbre de movimentos que não nos deixou indiferentes.

Ricardo Andrez foi outro grande desfile, ao retirar a identidade aos seus modelos. Aqui a liberdade e igualdade é total: não há raça, género ou desejo. As peças existem por si, foram criadas para ser usadas por qualquer entidade e devem ser apreciadas apenas em si mesmas. Houve um predomínio dos tecidos frios, do casual chic e do sport ware, onde rasgos, aberturas e fitas davam significado às peças, que simultaneamente faziam jogos de cores com os manequins. Marcante.

Por fim falamos de Luis Carvalho. Escolhido para o término desta edição de moda em Lisboa, transformou a passerele num ambiente disco, com a presença de um Dj, música ao vivo e uma enorme e faiscante bola de espelho suspensa. A coleção intitulada “Heart of glass” remeteu ao pop/rock dos anos 70, tendo Debbie Harry dos Blondie como inspiração. Esta é uma coleção de contrastes, entre os curtos e longos, skinny e XL, onde as cores vibrantes se unem aos metalizados e às aplicações de pedrarias nos detalhes das roupas. Se tivessem dado ordem de abertura da pista de dança, todos teriam se juntado às modelos e entrado no clima de festa em plena passerela. Os aplausos foram inúmeros e o sentimento de alegria contagiou a todos antes da partida.

Text por: Carlota S. Veiga
Video by: Shaun Michael
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